O dia acordou cinzento e calmo. O que para alguns seria um dia triste de Agosto, para mim é apenas um dia em que o céu pensa no seu verdadeiro eu e o calor cansou-se de ser predominante.
Através dos cortinados, que voam incessantemente com a aragem fria e húmida, sinto a luz do sol penetrar por entre nuvens cinzentas. Prenuncio de chuva? Prenuncio de calor? Ou apenas um dia em que não fará nem um nem outro, em que sol e nuvens se revezarão no céu de Lisboa, e talvez também no meu espírito.
Um dia que faz recordar outros dias: o dia em que o céu também chorou por mim, o dia em que a praia ficou calma, o dia o mundo tal como eu o conhecia findou.
Cheira a terra molhada! Lembro-me da primeira vez que o senti. Foi como um esvaziar e um reenchimento de mim mesmo. O calor mas ao mesmo tempo fresco, o doce mas leve desse cheiro ainda hoje provoca em mim o mesmo de outrora, o mesmo que a primeira vez.
O nevoeiro que me envolve tomando o meu corpo e a minha alma, levando-os a viajar até um tempo em que as primeiras chuvas traziam os primeiros bolinhos da avó, com aquele cheiro doce, aconchegante, reconfortante e convidativo que tomava a casa por inteiro. Onde, a lareira era o centro de encontro de todos os que tinham andado perdidos. Aquele espaço de encontro e reencontro, das histórias fantásticas e emocionantes do Avô, em que ele era sempre o herói de um feito supra-humano. Do futuro pensado só com base nos meus sonhos de neto, sentado no colo do meu avô.
Este dia em que o sol e as nuvens, a terra e o mar, eu e a cidade se fundiram para criar o novo mundo à luz dos meus olhos.